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Meu dedo, meu herói

Luis Fernando Verissimo

Espero que, se ainda não escolheu seus candidatos, você pelo menos já tenha escolhido o dedo com que vai votar. Não fizeram nenhuma pesquisa de intenção a respeito (“Se as eleições fossem hoje, com que dedo você votaria?”) mas acho que o resultado seria algo como indicador 70%, polegar 15%, mindinho 10%, não sabe, não respondeu ou mandou o pesquisador pastar, 5%. Por aí. Escrevo, portanto, presumindo que você pressionará todas as teclas da maquininha, hoje, com o seu dedo indicador.

Olha para ele. O seu indicador. Não parece grande coisa, não é? É um dedo útil, mas não exatamente um dedo indispensável. Você viveria muito bem sem ele. Sua principal tarefa – indicar – poderia ser facilmente assumida por outro, se ele viesse a faltar. É um dedo importante para formar o conjunto mas não é, assim, um grande dedo, um dedão opositor, por exemplo, sem o qual a vida civilizada seria impossível. Não é nem um dedo médio, como o seu vizinho. O indicador é apenas isso: o componente de um set, sem nada de especial que o caracterize. Salvo hoje. E, claro, daqui a vinte dias, se houver segundo turno.

Hoje é o dia dele, hoje ele é o rei da mão. Espero que você o tenha tratado com o devido respeito, durante a semana. Que não o tenha usado para nenhum fim menos nobre. Que o tenha protegido, mantido a sua temperatura constante com algum tipo de agasalho, cuidado de sua higiene e da sua aparência. Se o levou a uma manicure para prepara-lo profissionalmente para o seu grande dia, não fez mais do que ele merece. Afinal, hoje ele é a sua parte mais cidadã. Hoje, você é que é o acessório dele, apenas o meio que ele usara para chegar até a maquininha e fazer o seu trabalho. Se pudesse ir sozinho, ele nem precisaria de você.

Hoje, é ele que decide. Hoje, ele é a coisa mais decisiva da nação. Quem diria, não é mesmo? O seu indicador, pelo qual, normalmente, ninguém daria nada. Uma pequena extensão de carne, osso e articulações com uma unha na ponta, nada mais singelo e despretensioso. Nem nome ele tem. A não ser que você seja dos que põem nomes carinhosos nas suas partes, e ele se chame Zé, Huguinho ou Rubenval Ostramonte de Troncoso Pinto. Tudo bem. Mas ele não tem posses. Não tem dinheiro. É somente um dedo, um pobre dedo. Não tem o controle de nada, não tem aptidão para nada, não consegue nem segurar um lápis sozinho. E, no entanto, hoje ninguém tem tanto poder quanto ele. Hoje é tudo com ele. Hoje ele é que manda.

Mas é preciso ter cuidado. Há muita gente inconformada com tanto poder num dedo. Gente que acha que o Brasil é um negócio grande demais para ficar dependendo assim de indicadores que não são os econômicos, de indicadores de carne, osso e articulações em vez de números e previsões de lucro ou perda. Gente que, inclusive, já votou, manipulando os seus indicadores para tentar influenciar o seu, com medo do que o seu vai fazer na maquininha. É gente muito forte, contra a qual o seu indicador nada poderia numa luta aberta, a não ser fazer cócegas na sua barriga poderosa e depois correr. Na hora de apertar as teclas da maquininha, no entanto, o seu indicador é soberano. Nada pode detê-lo, ninguém pode vencê-lo. Mas cuidado: podem tentar.

Olhe para ele. Coisa, né? Dê um beijinho nele, vai. Flexione-o, teste os seus reflexos e a sua resolução e rigidez. Treine-o em votações simuladas, só evitando que ele se entusiasme muito e se lesione. Prepare-se para leva-lo até a maquininha com o mínimo de risco. Resista a tentação de carrega-lo no alto, em triunfo, como um ídolo, gritando “Olha ele aí, pessoal! É ele!” No caminho, evite apertos de mão muito fortes. Se precisar usá-lo numa função corriqueira e vulgar, mas absolutamente inadiável, use o da outra mão. Hoje o seu indicador é a melhor parte de você. É o seu representante legal, a sua arma, o seu herói. Incentive-o com frases como “Vamos lá campeão!” Se ele estiver nervoso, convença-o que você estará lá, atrás dele, cuidando para que ninguém interfira no seu trabalho. E que ele não estará sozinho, que outros dedos iguais a ele estarão fazendo a mesma coisa, e que eles serão legiões.

Existe um perigo, certo. É o de que seu indicador, enlouquecido pela notoriedade que ganhou desde que a maquininha passou a ser o único meio de votar, se rebele. Se ache tão importante que, na hora, resolva agir por conta própria. E você descubra que, embora seja Lula, seu indicador é Serra! Ou outro qualquer, só para mostrar sua independência. Mas as possibilidades que isto ocorra são mínimas. Seja qual for a sua escolha, confie no seu dedo. O Brasil inteiro está confiando.


Domingo, 6 de outubro de 2002.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.